
Na manhã de 16 de outubro, às 9h pelo horário de Brasília, a Apple abrirá a pré-venda do iPhone Duo, o primeiro dobrável da empresa.
Alguns milhares de pessoas estarão com a página da loja aberta, o cartão já cadastrado e a configuração, escolhida com antecedência — antes que você diga que eu estou criticando alguém, sim, eu estou nesse grupo, mas vou buscar nos Estados Unidos —, dispostas a pagar a partir de R$22.000 pela versão básica de 256GB (nos EUA, US$2.000). Uma semana depois, em 23/10, os primeiros aparelhos chegarão às mãos desses compradores, e com eles começará um experimento que interessa a qualquer pessoa curiosa sobre como as inovações se espalham.
A pergunta que dá título a este texto não é retórica. Quem são essas pessoas? O que exatamente estão comprando? E, sobretudo, o que o comportamento delas diz sobre o destino do aparelho nos próximos anos?
O comprador da primeira geração do iPhone Duo está adquirindo, ao mesmo tempo, uma ferramenta e uma posição. A ferramenta ainda é imatura e cara; a posição, a de estar entre os primeiros, tem valor próprio. Só quando a segunda parte perder importância e a primeira amadurecer, o dobrável vai virar um aparelho de trabalho para a maioria das pessoas — e isso, como a história da própria Apple sugere, leva pelo menos duas gerações. Vamos refletir, então, sobre o fenômeno econômico-social dos pioneiros do mercado.
O atraso calculado
Convém começar registrando o óbvio: a Apple chegou “atrasada”. Coloco entre aspas porque atrasado mesmo é quem tentou chegar a tempo e não conseguiu, o que, sabemos, não é o caso da Apple.
A Samsung lançou o primeiro Galaxy Fold em 2019, sete anos antes do Duo, e de lá para cá o mercado de dobráveis teve tempo de errar, corrigir e amadurecer. No palco e nas entrevistas posteriores, John Ternus (CEO 1) e Greg Joswiak (chefão de marketing) repetiram a mesma explicação: a Apple lança um produto quando ele atinge os padrões de qualidade, durabilidade e design da empresa, e não tinha interesse em entrar na categoria mais cedo com algo feito pela metade.
O discurso é conhecido porque a prática é antiga. Havia tocadores de MP3 desde o fim dos anos 1990 quando o iPod chegou, em 2001. Havia smartphones com teclado físico em todos os bolsos executivos quando o iPhone foi apresentado, em 2007. Havia relógios inteligentes à venda quando o Apple Watch estreou, em 2015. Como já se observou por aqui na coluna sobre os 50 anos da empresa, a Apple raramente foi a primeira em alguma coisa; sua especialidade é chegar quando a categoria já mostrou onde estão os problemas e entregar a versão que resolve a maior parte deles. Chegar depois, porém, não elimina a etapa em que o produto novo precisa convencer alguém a arriscar primeiro. Apenas muda quem assume esse papel.
Pioneiros
O sociólogo Everett Rogers dedicou boa parte da carreira a estudar essa etapa. Em Diffusion of Innovations (Difusão de Inovações), publicado originalmente em 1962 e revisado ao longo de quatro décadas, ele mostrou que a adoção de qualquer novidade, de sementes híbridas a técnicas médicas, segue uma curva bastante previsível, e dividiu os adotantes em cinco grupos.
Os primeiros são os inovadores, cerca de 2,5% do total: gente que tolera risco, paga caro, aceita defeitos e gosta da novidade pela novidade. Em seguida vêm os adotantes iniciais, perto de 13,5%. Eles são mais criteriosos e, sobretudo, formadores de opinião, porque os demais observam o que eles fazem. Depois aparecem a maioria inicial (34%), a maioria tardia (outros 34%) e os retardatários (16%), grupos que só se movem quando a novidade já deixou de ser novidade.
Aplicada ao Duo, a classificação ajuda a entender a fila da pré-venda. Quem paga para ter um aparelho de primeira geração está, quase por definição, nos dois primeiros grupos. Não se trata de julgamento de valor: sem essas pessoas, nenhuma inovação sairia do laboratório, e é o uso real que elas fazem (inclusive as reclamações) que alimenta a segunda geração.

O abismo no meio do caminho
Em 1991, Geoffrey Moore acrescentou uma observação que se tornou leitura obrigatória no mercado de tecnologia. Em Crossing the Chasm (Atravessando o Abismo), ele argumenta que a curva de Rogers não é contínua: entre os adotantes iniciais e a maioria inicial existe um abismo, porque os dois grupos compram por razões diferentes. O entusiasta compra potencial; o pragmático compra solução completa, com preço razoável, referências de quem já usa e a garantia de que o produto vai funcionar no dia seguinte, sem exigir paciência.
É exatamente aí que a estratégia de chegar depois costuma render à Apple. Quando o produto nasce mais maduro, a travessia do abismo fica mais curta. Ainda assim, nenhuma maturidade de engenharia atravessa sozinha um preço de R$22.000. A maioria pragmática não está fazendo a pergunta “Isso é incrível?”, e sim “Isso resolve algo que eu não resolvo com o que já tenho?”, e com esse valor a resposta precisa ser muito convincente.
O que o aparelho comunica
Há uma segunda camada nessa compra, e ela não aparece na ficha técnica. Em 1899, Thorstein Veblen publicou “A Teoria da Classe Ociosa”, livro que deu nome ao consumo conspícuo: a aquisição de bens cuja função principal é tornar visível, para os outros, a posição de quem os possui. Veblen escrevia sobre carruagens e porcelanas, mas o mecanismo envelheceu muito bem.
O dobrável tem uma característica que o torna especialmente adequado a esse papel: ele é reconhecível à distância. Ninguém identifica um processador numa mesa de reunião, mas todo mundo nota um telefone que se abre e vira um pequeno tablet. Em minha última coluna, sobre por que tanta gente ama (ou odeia) a Apple, discuti como a marca funciona como sinal de pertencimento a um grupo. O Duo leva esse sinal ao limite, pelo menos enquanto for raro.
Convém evitar o moralismo fácil. Toda compra carrega algum componente de sinalização (a caneta, o relógio, o carro, o próprio iPhone “comum” em boa parte do Brasil), e isso não torna o produto menos útil. O ponto é apenas reconhecer que, na primeira geração, uma parte relevante do valor pago remunera a exclusividade, e essa parte desaparece à medida que o aparelho se populariza.
E para o trabalho?
Esta é a pergunta que mais interessa a quem usa o iPhone como ferramenta profissional.
A tela interna tem 7,6 polegadas, pouco menor que a de um iPad mini, e a Apple trouxe para ela a visualização dividida, com dois aplicativos lado a lado ou duas janelas do mesmo aplicativo (duas abas do Safari, por exemplo). O chip é o mesmo A20 Pro do iPhone 18 Pro. Na ficha, há ali um instrumento de trabalho respeitável. Na prática, os usos profissionais plausíveis são três.
O primeiro é a leitura e a revisão de documentos em trânsito, atividades que, numa tela de 6″, sempre foram um exercício de paciência. O segundo é o trabalho com duas fontes ao mesmo tempo, como consultar um relatório enquanto se responde a uma mensagem sobre ele. O terceiro é a apresentação improvisada, o aparelho aberto sobre a mesa para mostrar um gráfico a duas ou três pessoas sem depender de projetor.

Quem já carrega um iPad mini na bolsa, porém, resolve os três casos por uma fração do preço, e com uma tela maior. O argumento do Duo é juntar dois aparelhos em um, e essa proposta tem peso real para quem vive em deslocamento. Além disso, para o consumidor do iPhone Pro em conjunto com o iPad mini, o investimento ficou menor do que o de comprar dois aparelhos separadamente. Para a maioria dos profissionais, no entanto, a conta ainda não fecha, e é justamente essa distância entre o que o aparelho faz e o que ele custa que define o abismo de Moore.
Padrão Apple
Se o padrão se repetir, a segunda e a terceira gerações é que vão decidir o futuro do Duo.
O primeiro iPhone, de 2007, não tinha loja de aplicativos nem 3G; foi o iPhone 3G, lançado no ano seguinte com a App Store e preço convidativo, que começou a atravessar o abismo. O primeiro Apple Watch chegou posicionado como acessório de moda, com versões de ouro que custavam o preço de um carro; foi a partir da segunda geração, com o reposicionamento para saúde e exercício, que o relógio encontrou sua maioria.
Nada garante que o dobrável siga o mesmo roteiro, mas os sinais a observar são claros: a velocidade com que o preço cai (em proporção à inflação e ao poder de compra das pessoas, e não em valor absoluto), a quantidade de aplicativos que passam a aproveitar de verdade a tela interna e, sobretudo, a presença do aparelho nas mãos de pessoas que não se interessam por tecnologia. Quando o Duo aparecer na mesa de alguém que comprou porque precisava, e não porque queria ser o primeiro, a travessia terá começado.
Conclusão
A fila da pré-venda de 16/10 vai reunir, na linguagem de Rogers, inovadores e adotantes iniciais. Eles vão pagar pela engenharia, pela novidade e, em alguma medida, pela visibilidade, pelo pioneirismo e pelo gosto de sentir o novo. Criticados e até satirizados por muitos, são esses compradores que vão prestar um serviço a todos os demais ao testar o aparelho no mundo real. Sua saga de pagar caro, enfrentar problemas e bugs, passar pelo período de adaptação e até correr o risco de o produto flopar e de eles ficarem com um abacaxi na mão, seguirá seu fluxo normal.
A pergunta relevante para o restante do mercado não é se o iPhone Duo é bom (tudo indica que é), e sim quando ele se tornará necessário para alguém além de quem gosta de estar na frente. Até lá, a decisão de compra para quem trabalha com o iPhone pode ser tomada com uma pergunta simples: o que exatamente esse aparelho faz que as ferramentas atuais não fazem, e quanto vale esse ganho por mês de uso? Se a resposta vier com clareza, a compra se justifica. Se vier acompanhada principalmente de entusiasmo, talvez valha esperar a segunda geração.
Referências
MOORE, Geoffrey A. Crossing the chasm: marketing and selling high-tech products to mainstream customers. New York: HarperBusiness, 1991.
ROGERS, Everett M. Diffusion of innovations. 5. ed. New York: Free Press, 2003.
VEBLEN, Thorstein. A Teoria da Classe Ociosa: Um Estudo Econômico das Instituições. São Paulo: Nova Cultural, 1987. (Os Economistas).
WHY Apple waited on iPhone Duo and priced its first foldable at $1,999, The Mac Observer.